É uma força da natureza.
Acho que é a melhor definição que posso dar. Os pensamentos
nos fazem travar, literalmente, e não conseguimos seguir adiante antes de
realizarmos os rituais.
No meu caso, sempre associo que algo de ruim vai
acontecer. Então por que não evitar? O que significa pisar na quina de um meio
fio, não sentar em determinado lugar, ou evitar pisar numa faixa, por exemplo, se for para evitar um
sofrimento?
Tenho um amigo que também tem esses problemas. Certo dia ele me contou um de seus rituais.
Todo dia, ao chegar do trabalho, ele estacionava
seu carro na garagem do prédio, e ao lado de sua vaga ficava um carro amarelo.
O carro estava sempre lá. Para ir ao elevador, bastava ele sair do seu carro e
seguir em linha reta. Mas não. Alguma força fazia com que ele caminhasse em
volta deste carro amarelo antes, que ficava mais afastado.
Não havia a menor condição desse ritual não ser
realizado.
Isso durou meses, anos, sei lá. O que era apenas um “o que
custa?”, passou a ser uma tortura, pois além dele não fazer o mais simples, tinha a frustração de não conseguir vencer algo aparentemente tão banal. Ele se sentia um derrotado.
Até o dia em que ele chegou em seu
condomínio, como em qualquer dia normal, mas o carro amarelo não estava lá.
Uma pausa para o suspense.
E agora? Como realizar o ritual sem o personagem principal?
Meu amigo chegou a pensar que finalmente havia chegado o dia
da libertação. Ele respirou fundo e saiu do carro em direção ao elevador. Só
que seus passos começaram a ficar curtos, seus braços colaram no corpo e ele
travou. Não conseguiu dar mais nenhum passo. Não sei o que ele pensou no
momento, mas com certeza deve ter vindo aquela sensação de impotência.
A única solução seria voltar para o carro. E foi o que aconteceu.
Derrotado pela sua própria mente, ele entrou no seu carro e aguardou o carro
amarelo voltar. E só conseguiu entrar no elevador depois de cumprir sua
“obrigação” diária, isso depois de quase duas horas de espera.
Vocês conseguem imaginar como esse cara sofreu? Difícil, mas
eu consigo.
Acontece exatamente a mesma coisa comigo. É uma força muito
maior que a gente. Não comandamos a nossa mente, e sim ao contrário.
Alguns TOCs são até engraçados, como o tradicional “não
pisar na linha”, por exemplo, mas outros são torturantes e constrangedores. E o
curioso é que esses pensamentos vêm e vão de uma hora para outra, pelo menos
comigo. Posso não ter mais a necessidade de executar um ritual a qualquer
momento, sem o menor trabalho psicológico para isso, mas por outro lado, algum
novo pode surgir ao amanhecer.
Também tenho um caso curioso para contar.
Quando eu ainda estava na faculdade, minha rotina era chegar
em casa por volta das 11 horas da noite, às vezes um pouco mais. Eu descia do
ônibus e andava uns 10 metros antes de chegar na entrada do meu prédio. Era apenas a entrada, e não a portaria.
E toda a vez em que chegava nessa entrada, eu precisava dar
uma joelhada com a perna direita numa pilastra. Coloquei uma foto para
vocês entenderem melhor.
O curioso é que minha implicância era com aquela pilastra especificamente. Se eu chegasse no prédio pelo sentido contrário, tudo bem. Não precisava fazer absolutamente nada.
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Minha companheira, a pilastra. |
O curioso é que minha implicância era com aquela pilastra especificamente. Se eu chegasse no prédio pelo sentido contrário, tudo bem. Não precisava fazer absolutamente nada.
E de segunda à sexta, por volta das 23 horas, eu estava
dando uma joelhada na entrada do prédio. E isso durou um bom tempo. Meses talvez. Não
faço a mínima ideia do dia que começou, e nem como começou, mas me lembro
perfeitamente de seu último dia.
Depois de um dia normal de trabalho e de faculdade, desci do ônibus ao voltar pra casa, e fui em direção a pilastra. Dei minha tradicional joelhada, que eu fazia normalmente sem precisar parar de andar (muita prática), e me dirigi à portaria.
Cumprimentei o vigia e fui pegar o elevador, naturalmente. O detalhe é que tudo isso era feito no "automático", ou seja, não era premeditado. Tudo acontecia no seu tempo.
Só que neste dia, o vigia veio atrás de mim:
“Posso te fazer uma pergunta?”
“Claro João!”
“Por que você chuta a pilastra todos os dias quando chega?”
Acho que minha vergonha chegou ao nível máximo naquele
momento.
“Eu? De que você está falando? Nunca reparei, João. Não é
impressão sua?”
E subi. Fiquei muito sem graça. Muito. Não sabia que alguém
notava naquilo, até pelo horário. No dia seguinte fiquei bastante pensativo, chateado.
Não pelo flagrante, mas em precisar fazer aquilo todos os dias. Por que minha mente me obriga a fazer isso?
Mas a vida
continua e à noite eu teria mais um dia de, a partir de então, de constrangimento.
Só que o milagre aconteceu. Ao descer do ônibus e entrar no
prédio, não me veio pensamento nenhum, e não tive a menor necessidade de
“cumprir a minha obrigação”. Passei direto, não travei e segui adiante.
“Boa noite, João!”
E subi, feliz da vida. Eu estava liberado.
Essa história tem uns 30 anos, mais ou menos, e o João ainda
trabalha aqui. Mal sabe o bem que me fez.
Mas não pensem que meus TOCs são curados desta forma. Se fosse assim, seria tudo muito fácil. Não
adianta alguém tentar fazer a mesma coisa que o João, achando essa é a solução.
Não é assim que funciona.
Talvez todo o contexto da história tenha mexido com a
minha cabeça. O fato do João ter me acompanhado nessa minha obrigação durante todo o
tempo, cheio de curiosidade, sem ter falado nada. Na forma que ele me abordou, cheio de cuidado, sei lá. Alguma
coisa mexeu comigo. Só sei que deixei a pilastra em paz para todo o sempre. Pelo menos até hoje.
Mas existiam certos TOCs que me incomodavam demais, que
sabia que as pessoas notavam, e mesmo assim eu não evitava.
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Meu companheiro, o portão. |
Esse portão verde é a entrada e saída de carros. E nesse portão maior havia uma porta só para pedestres. Quando um morador entrava ou saía do prédio, a pé, o porteiro só precisava abrir esta porta menor.
Muito bem. Todos os dias ao sair, eu abria esta porta e passava para o lado de fora, mas sem soltá-la. Tinha que pedir novamente proteção à Deus. O problema é que isso deveria ser feito ainda segurando a porta.
Na minha mente, segurar a porta ainda me deixava conectado a algum lugar seguro, como um cordão umbilical, mesmo que eu já estivesse do lado de fora. Só depois de "protegido" que eu estaria liberado para sair. E isso depois de todo o ritual que eu já havia feito em casa.
Na minha mente, segurar a porta ainda me deixava conectado a algum lugar seguro, como um cordão umbilical, mesmo que eu já estivesse do lado de fora. Só depois de "protegido" que eu estaria liberado para sair. E isso depois de todo o ritual que eu já havia feito em casa.
Estão lembrados que esses meus pedidos de proteção não poderiam ser
feitos de qualquer maneira? Eu deveria ser “ouvido”. Isso poderia durar até um minuto, dois minutos, talvez. Uma eternidade.
Certo dia, já segurando a porta, surge um carro querendo
sair do prédio. Neste caso, o portão maior precisaria ser todo aberto. Mas como,
se eu estava ali, parado, segurando a porta de pedestre?
Ninguém entendeu absolutamente nada do que eu estava fazendo
ali, nem o porteiro e nem o morador que estava dentro do carro, pacientemente aguardando um maluco soltar o portão.
Até que me aparece um outro
carro, dessa vez para entrar no prédio. Aí deu a confusão. Um carro querendo sair,
outro querendo entrar, e eu no meio, segurando o portão. As pessoas começaram a
buzinar, até porque eu já estava afetando o trânsito na rua.
O porteiro,
coitado, sem saber o que fazer, e eu lá, tentando pedir proteção. Tentando,
pois naquele momento a concentração já estava no espaço, e não tinha nenhum santo me ouvindo.
Depois de algum tempo e alguns xingamentos, finalmente consegui e fui embora como se nada
tivesse acontecido.
Classifico esses meus TOCs de vísiveis, que são esses que citei agora, os invisíveis, que são os piores, pois afetam sua mente, realizando ou não os rituais, e os relâmpagos.
Talvez eu nunca tenho falado com ninguém sobre os "TOCs relâmpagos".
Esses são os gatilhos que aparecem em determinado momento, do nada, e eu preciso realizar algum ritual. Assim que é realizado, esse TOC desaparece definitivamente. Vou dar um exemplo.
Estou andando pelo shopping, tranquilamente, quando vejo um objeto numa vitrine. Esse objeto, por algum motivo, faz disparar um gatilho na minha mente. Mesmo que eu já tenha passado pela vitrine, preciso voltar e olhar novamente o objeto. Às vezes tocar na vitrine, sei lá. A necessidade surge na hora.
Posso passar novamente pelo mesmo objeto várias vezes, que não vai acontecer mais nada. Não sentirei mais nenhuma necessidade
de voltar e olhar para o objeto novamente. Por isso digo que é relâmpago. Chega e vai embora imediatamente. Mas não deixa de ser um transtorno obsessivo compulsivo.
São muitos e muitos rituais, impossível me lembrar de todos.
Alguns já foram embora, outros chegam para substituir. Uns são mais
trabalhosos, outros mais tranquilos, e por aí vai.
Acreditem, não é frescura, como muita gente pensa. Somos
escravos de nossa própria mente. Me considero até um privilegiado, pois tenho
diversos rituais que muita gente nem sabe e nem percebe. Até os que convivem diariamente comigo.
Outros eu mesmo conto, me divertindo. Não tenho a menor vergonha, e talvez isso me ajude. Levo minha vida normalmente. Mas tem muita gente que sofre, que
tem a sua vida afetada de verdade. Não só a sua, mas de seus familiares também.
Isso não é brincadeira, muito pelo contrário.
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